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  • Categoria: 1 ESTRELA
  • sábado, 2 de abril de 2016

    O Terceiro Travesseiro - Nelson Luiz de Carvalho

    Fonte: wikipedia

    AUTOR: Nelson Luiz de Carvalho
    EDITORA: Edições GLS
    ISBN: 9788586755439
    LANÇAMENTO: 1998
    NÚMERO DE PÁGINAS: 210
    Baseado em uma história real, este romance desafia rótulos e hipocrisias, revelando os meandros de consciência de Marcus, um jovem comum da classe média paulistana. Com o melhor amigo Renato, descobre o amor e compreende que os dois precisarão encontrar o equilíbrio entre o que sentem e o que a família e a sociedade esperam deles, até que um terceiro personagem aparece.

    É incrível como um mesmo livro pode suscitar reações profundamente diferentes em seus diversos leitores e mais incrível ainda é a criatividade humana quando se trata de expressar sua indignação em relação a algo. Ao coro de indignados, junto-me agora.

    "Não. Só não." define muito bem meus sentimentos, mas permitam-me explicar por que, nas palavras do autor do comentário previamente citado, "esse livro é todo errado". Alerto já que haverá spoilers, pois apenas através de exemplos é possível compreender o quão absurda e problemática é esta história, mas não se preocupem, adianto que minha única recomendação é para que fiquem o mais longe possível deste livro.

    Pois bem, a história começa - mal, devo dizer - com dois jovens, Hermes e Renato, digo, Marcus e Renato que se descobrem atraídos um pelo outro e se envolvem. Não bastasse um início fascinante e absolutamente inovador, leia-se o sarcasmo, o leitor já se depara imediatamente com uma escrita superficial em que o autor nos diz o que acontece em vez de deixar a história contar a si mesma. Mas obviamente o desgosto não se limita à forma como os acontecimentos são relatados; o próprio conteúdo é problemático e superficial, tal como a escrita.

    O primeiro dos muitos, muitíssimos pontos profundamente errados, se dá no fato de que, uma vez feito o sexo, Marcus já se refere a Renato como seu namorado. Não há diálogo para que se estabeleça que ali há uma relação estável, não há uma oportunidade na qual o consentimento é manifestado, não há sequer uma base factual sólida para qualificar a relação dos dois como romântica e bem definida. E não será a primeira nem a última vez em que as personagens são absolutamente incapazes dialogar ou em que o consentimento é, no mínimo, duvidoso.

    Dentre os muitos ocorridos desta novela mexicana cheia de dramas, vale ressaltar também o maravilhoso momento em que o pai de Renato, após o filho revelar ser homossexual, lhe dá uma facada sem querer. Repito: sem querer. A explicação dada é esdrúxula, o fato em si é surreal e o todo é simplesmente ridículo. Mas quisera eu o livro se resumisse a cenas absurdas como esta, pois ao menos assim não seria o grande desserviço que é.

    E eis aqui um ponto crucial: apesar de tratar do romance (a princípio) de dois garotos, o primeiro desserviço de O Terceiro Travesseiro é à comunidade MOGAI*, em especial aos homossexuais masculinos afeminados, já que o autor se vê no direito de, não uma, mas duas vezes tratar o ser afeminado como algo a ser ridicularizado. A perpetração de conceitos típicos da sociedade patriarcal, porém, vai muito além e poder ser vista também na forma como Beatriz é tratada, vítima de xingamentos misóginos jamais criticados ao longo do livro. E mencionei agressão entre parceiros, sinal de um relacionamento abusivo? O sexo não consensual? Tudo isso sem que um A de problematização fosse proferido. 

    A tudo isto, soma-se ainda o desserviço que a história faz ao poliamor, já que o relacionamento a três não surge de um diálogo e do estabelecimento de igualdade entre todas as partes. Pelo contrário, Beatriz é quase como uma terceira parte intrusa, aceita, mas menos amada, menos desejada, menos essencial. Como sempre, ao encarar não apenas esta situação, mas múltiplas outras ao longo do livro, as personagens são superficiais, incapazes de agir racionalmente, de conversar em busca da resolução de seus problemas. A verdade é que tudo parece ser transformado em um grande esquema, sempre permeado de drama, efetivamente como em uma novela mexicana das mais absurdas, de modo que o livro se torna repulsivo.

    Minha mais sincera recomendação é: não leiam este livro. A trama é ridícula, a escrita é atroz, as personagens são um pesadelo e nem sequer a mensagem que deseja passar é positiva. Se querem uma boa história que contenha um casal homoafetivo, recomendo The Song of Achilles.

    Escrito em: 28/01/2016
    Livro lido em: 26-27/12/2015




    *Popularmente conhecida como comunidade LGBT, utilizo aqui um termo menos conhecido, porém mais abrangente e includente. MOGAI = Marginalised Orientations, Gender Alignments and Intersex; em português: orientações e alinhamentos de gênero marginalizados e intersex (em tradução livre, que não pretende negar a marginalização de indivíduos intersex, apenas optando por colocar o adjetivo antes por razões estilísticas) 

    quarta-feira, 16 de março de 2016

    Laranja é o novo preto - O livro e a série



    AUTORA: Piper Kerman
    EDITORA: Intrinseca
    ISBN: 9788580575255
    NÚMERO DE PÁGINAS: 304
    Orange is the New Black é umas das séries mais populares da atualidade e uma das séries mais século XXI de todos os tempos. Um elenco composto majoritariamente por mulheres, aborda questões de sexualidade, racismo e sociologia. Eu assisti as três temporadas de uma vez. Enquanto  a quarta temporada não chega, aproveitei para dar uma olhada no livro que deu origem a essa série tão bem construída.

    Eu fiquei muito surpresa. O livro não é tão legal quanto a série. Nem de longe. Acho até incrível ter virado série, porque para mim, não passa de um livro que a gente compra no supermercado. Uma história genérica, o relato de Piper Kerman (Piper Chapman na série), uma mulher branca de classe média que acaba sendo presa por carregar uma mala de dinheiro para sua namorada traficante Nora Jansen (Alex Vause na série). Piper descreve uma experiência na prisão, a meu ver, pouquíssimo comovente, pois em comparação à suas companheiras de prisão, sua vida é as mil maravilhas e ela faz questão de ressaltar isso ao longo do livro. A narrativa de Piper se resume a: Contar o tanto de cartas, livros, carinho e apoio ela recebia dos amigos e da família, citar que isso não acontecia com a maioria das outras presas e apresentar alguma estatística sobre o assunto. O livro não consegue ser nem um relato de uma história de superação (porque não há drama o suficiente, nem um clímax bem construído), nem uma crítica ao sistema prisional americano, já que apenas cita esporadicamente dados com alguns comentários do ponto de vista da autora, mas sem uma visão mais ampla ou algum tipo de problematização mais profunda, tampouco serve para conscientizar os leitores sobre a situação em que se encontra o sistema penitenciário americano.

    Mas a esperança não está perdida, pois os produtores conseguiram enxergar um potencial enorme no livro. Tudo que o livro pecou em abordar, foi exposto de forma atrativa para os expectadores. Você tem drama, comédia, ação, suspense, pautas lgbt, pautas sociais, etc. No livro, Piper só encontra Nora em Chicago, na série tiveram a excelente ideia de colocá-las no mesmo lugar para que as duas personagens entrassem numa mistura de conflito, antagonismo e romance louco. Larry é um doce no livro, na série, os roteiristas não mediram esforços para transformá-lo no homem que você mais vai odiar. As detentas no livro vivem numa sororidade melancólica, na série é sempre uma zona de guerra entre as brancas, negras, hispânicas e outras minorias.

    Uma amiga minha comentou que achou que ao avançar da série, Piper perdeu o protagonismo e as outras personagens ganharam muito mais espaço. Esse pra mim é o ponto mais legal da série. Eu respondi: “Pra quê ficar mostrando o drama da mulher branca de classe média que fez merda na faculdade sendo que existem outras histórias que refletem a realidade de várias mulheres reais oprimidas pela situação social em que se encontram?”. O que acontece em Litchfield acontece no mundo real. Existem brigas entre grupos étnicos, racismo velado, estupros, tanto por parte de outras presas quanto por agentes penitenciários, tráfico, suicídio, reincidência por falta de políticas de reabilitação (e por causa do próprio sistema), corrupção e por aí vai.

    A série é muito boa pois debate todos esses aspectos de forma descontraída e leve (não no sentido que os assuntos são leves, mas de forma que você não precisa se esforçar muito para entender o que se passa), o que você encontra de forma muito pobre na obra original. Deixo aqui minha recomendação para assistir a série e esquecer o livro. Se você se interessa pelo assunto, leia Estação Carandiru, de Drauzio Varella.